Wellington’s Back no “Quinta dos Frades”

Wellington’s Back com queijo da serra, mel de rosmaninho e legumes grelhados.

A globalização é um fenómeno interessante, particularmente quando leva a que um prato de origem inglesa seja recriado por um argentino com um lençol na cabeça (que nos remete para algo entre um indiano e um tuareg) e apreciado em Lisboa, no Lumiar, num espaço prosaicamente denominando Quinta dos Frades. É nestes momentos que acredito numa espécie de caos cósmico que tem um método muito estranho de se nos apresentar ordenado.

O Bife Wellington recriado pelo chef Chakall apresenta-se-nos não cortado na famosa rodela, mas inteirinho, numa bola saborosa, com carne daquela que nos leva a louvar a morte do abençoado bicho que foi sacrificado para nosso deleite. Acrescento desde já que é pecado, apenas remível pelo suplício, pedir uma destas iguarias média ou bem passada. É, além de pecado, um insulto para quem a cozinha e para o próprio animal que foi ao altar morrer para que lhe pudéssemos comer a carne. Pede-se mal passada, por uma questão de respeito. Em seguida, escolha-se o vinho a preceito. Para quem não sabe o que pedir, peça o conselho ao escanção da casa. Na Quinta dos Frades só não bebe bom vinho quem bebe água, e só não bebe o vinho apropriado quem não souber falar. Depois, à medida que vai apreciando a opus que está a comer, faça o favor de ir misturando o sabor da carne, envolta na massa folhada e no recheio, com o dos legumes e apurando o paladar com o dito tinto.

À saída, prometa-se a si mesmo o regresso e faça o que eu já venho fazendo há muito tempo: sempre que telefonar a marcar mesa, procure a garantia de que o dito Wellington’s Back está mesmo de volta e à sua espera para a refeição pretendida.

Pela nossa parte, o Welligton’s Back e nós, aqui no ‘Vadiagens’, também estamos de volta. Além disso, com este prato, o Chakall passou a ser o meu argentino preferido em Portugal… quer dizer, depois do Saviola e do Aimar.

Escrito por: a 11 de February de 2012 - 15:04 | 2 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: , , ,

Assinatura

Comecemos pelo início: excelente. Porra! Excelente sem “mas” nem meio “mas”. Excelente sem aquelas tretas do “apesar de…” e “ainda podia…”. Sem gaitinhas nem fifís, o restaurante “Assinatura” é excelente.

É tão bom que nem o facto de ter terminado a refeição com uma arrojada sobremesa à base de violetas, rosas e sei lá mais o quê, e de aquilo ter um sabor de boneco de pvc misturado com sabonete ‘Feno de Portugal’, conseguiu estragar ou macular o resto da refeição.

Desde a simplicidade acolhedora do espaço ao sentido de humor, educação e profissionalismo de quem acolhe e acompanha os comensais durante o repasto, tudo é de louvar. Começou por me agradar a boa disposição e inteligência da apresentação dos pratos na ementa. Continuou por me agradar aquela mesa invertida, suspensa do tecto, símbolo de um mundo-às-avessas e de saudação à carne e aos prazeres da mesa. No “Assinatura” sentimos que nada do que parece é, mas também nada nos engana com aparências. Depois da ousadia de nos receberem com uma “Sopa fria de beldroegas, pêra, queijo e pinhões” em que o sabor das beldroegas se transforma, de uma forma simples, em algo idêntico a uma iguaria, têm a ousadia de citar José Cid, para tentar o comensal a arriscar uma entrada de favas com chouriço. Têm a ousadia de apresentar os “Ovos mexidos com túberas e espargos bravos” numa inaudita inovação que nos faz acreditar que é sempre possível recriar com qualidade o que já vem criado desde os tempos de antanho. Apresentam um “Lavagante gratinado com manteiga de alho e limão” que desafia o mais céptico a acreditar que a inspiração pode estar em coisas tão simples como a combinação de manteiga de alho e… limão.

Passando aos ‘pecados da carne’ e a tudo o que é feito ‘com anzóis e outras artes,’ começo por dizer, solenemente, que uma entremeada é uma entremeada (nunca pensei escrever isto). Uma entremeada é simples, pouco nobre e impossível de transformar em algo mais do que uma… entremeada. Mentira! A “Entremeada de porco bísaro no forno e com uma favada”, criada e executada pelo chefe Henrique Mouro, leva-nos a acreditar que estamos perante um dos mais nobres pedaços de bicho carnívoro que se pode saborear. Para além da dita entremeada, para a mesa foram convidadas as seguintes criações: “Espadarte na grelha em crosta e xarém de carabineiro” (esta com umas alterações pedidas pelo comensal e prontamente efectuadas pelo missionário da cozinha), “Enguias fritas com açorda de favas e farinheira”, “Borrego em crosta de canela num arroz de cenoura e túberas” e “Vitela maronesa na sertã, batatas e cogumelos primaveris”. Tudo, mas literalmente tudo, foi considerado excelente.

No final, ou lá perto, chegaram as sobremesas. Arriscou-se na tal aventura floral já referida, mas para além das “Flores, flores e mais flores” chegaram à mesa “Morangos, ruibarbo e hisopo”, “Um bolo de arroz e uma bica”, “Mel, pólen, amêndoas e chocolate”. Descontando as gargalhadas provocadas pelas expressões faciais de quem arriscou na tal sobremesa de flores, a opinião geral foi de agrado…

Além de tudo isto, para a mesa veio ainda o néctar “Lima Mayer 2007” (a merecer rapidamente um post), a boa disposição, o talento do chefe Henrique Mouro e a certeza de que há por ali criadores que sabem que assinar é colocar a impressão digital na obra criada. E que obra!!

 

Escrito por: a 9 de July de 2011 - 17:15 | 0 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: , ,

Sala de Chuto

O Paradigma é um estabelecimento novo, fica na baía de Cascais (espaço para ofender os Delfins:____________), tem evidentemente uma vista de eleição e aquilo que normalmente é o que mais interessa – comida muito boa – quando o objectivo é ser um restaurante, o que não me parece, infelizmente, que seja o caso.

Vamos por partes, como dizia o estripador.

Quando lá fui – há coisa de 6 horas, que já percebi que mais vale escrever enquanto a coisa está quente do que meter n vezes no micro-ondas e depois sair requentado e seco, como as coisas escritas pelo MST – a experiência foi amargamente ambivalente. Cruel, até.

Entrei no Paradigma (e esta frase poderia dar pano para mangas) e desemboquei numa zona de bar/lounge relativamente simpática onde socializavam uma série de indivíduos que – com notável presença de espírito, devo dizer – rapidamente me desafiaram para um jogo de ‘quem é que trabalha aqui e quem é que é cliente’. Às tantas, houve um fraco que desistiu do jogo e nos veio receber, com uma simpatia desconcertantemente temperada por uma genuína confusão por ver clientes (a confusão, percebi depois, tinha a ver com o facto de não sermos amigos ou conhecidos, como toda a restante clientela). Apesar do ar estranhamente surpreendido dos donos/sócios/anfitriões, e do aparente esgotamento nervoso que a pergunta ‘onde é que posso deixar o guarda-chuva?’ suscitou, a coisa melhorou. Subi ao piso superior e foi como se algo se desanuviasse (percebi mais tarde exactamente o quê).

O espaço é moderno e agradável, o Martini foi servido como gosto (com gelo suficiente para conservar um cadáver), o pão e as manteigas (de vários tipos) eram deliciosos, o vinho a copo, um Couteiro Mor muito honesto, à temperatura certa. As vieiras perfeitamente cozinhadas (‘perfectly cooked’ ao invés de ‘fucking raw’, em ramsaynês), as lascas de bacalhau fresco das melhores que comi, o lombo de veado magnífico e a trouxa de arroz doce com gelado de canela e mel uma maravilha (especialmente o gelado).

‘O problema?’, perguntar-se-á. É capaz de ter sido o facto de parecer ter acordado num filme intitulado ‘Chain Smoking Rich Bitches from Hell’ sem sequer me lembrar de ter feito um casting.

No site do restaurante, apresentam-no como sendo um ‘restaurante descontraído, recomendado para qualquer idade’. Era capaz de fazer sentido acrescentar ‘descontraído o suficiente para borrifar de alto nessas separações redutoras e espartanas entre fumadores e não fumadores’ ou ‘recomendado para qualquer idade se isso incluir putos de 3 anos que fumem “Português Suave” ou se se quiser livrar de idosos com problemas respiratórios’. Subitamente percebi porque é que me havia parecido que o ambiente tinha desanuviado no piso superior. Estava directamente relacionado com a quantidade de gente a fumar no piso inferior e no piso superior. Quando chegámos só havia mais uma pessoa no piso superior e lá em baixo toda a gente estava a brincar aos comboios do séc. XIX com a boca. No entanto, a quantidade de locomotivas no piso superior rapidamente aumentou, para bem da coerência do espaço e para mal das minhas vias respiratórias.

Voltando ao site do ‘restaurante’, escreve-se que o Paradigma ‘é o sítio perfeito para almoçar ou jantar mas não só’. Têm razão, e só falham na pouca explicitação do ‘não só’. Escreve-se também que ‘o ambiente é moderno, contrastando com algumas peças de decoração clássicas e o seu segredo… bom o seu segredo é simples: excelente cozinha, deliciosos Cocktails, rigor e simpatia no serviço e uma vista única que faz da visita uma experiência singular!’. Outra vez a fugir com o rabo à seringa, mas a fingir que se deu o rabo à seringa. Vamos lá ver uma coisa: é um segredo bem guardado, sim senhor, mas o segredo não é nem a cozinha nem os cocktails, e decididamente não é o rigor (apesar de poder ser a ironia) nem a simpatia ou a vista única (que não é única porque os prédios do lado e os vizinhos de cima também a têm). Não, senhores, o segredo é ainda mais simples: é um restaurante para fumadores que finge que não é um restaurante para fumadores.

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Escrito por: a 7 de June de 2011 - 02:24 | 2 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: ,

Melting Pot

Diz-se que é uma experiência de oito pratos de degustação. Diz-se que são oito pratos de inspiração alentejana. Diz-se isto, mas dizê-lo acaba por ser bastante redutor. Não sei se os pratos são oito ou não. De todas as vezes que fui ao Melting Pot, no centro histórico de Cascais, esqueci-me de coisas tão banais, fúteis e inúteis como contabilizar excertos de prazer. Além de que, sendo eu um apreciador dos sabores base da comida alentejana, reconheço naqueles pratos inspiração, mas uma inspiração que vai bem além do Alentejo. Se, de facto, há por lá saberes alentejanos, há sabores que vão muito para além do que fica além do Tejo. Por exemplo, um camambert panado não é alentejano, é uma ousadia com final feliz. Por sua vez, o coelho com cebolinho ou aquela consistência única e certa para as migas de espargos têm nitidamente raízes de planície alentejana.

Além de tudo isto, o Melting Pot é um porto seguro. O menu quase não sofre alterações, a não ser as que são ditadas pela inspiração do dia. E as alterações pontuais no menu são acompanhadas pela permanência da qualidade. Por falar em qualidade, refira-se o excelente equilíbrio conseguido ao longo de toda a refeição, desde que entrámos no restaurante até à sobremesa, passando pelos vinhos propostos. Este equilíbrio é extensível ao espaço acolhedor, simples e intimista, que está em perfeita harmonia com a qualidade da refeição e a simpatia dos anfitriões.

Deveria terminar este apontamento, seguindo as regras canónicas, e referir-me à minha última, renovada e agradável visita ao Melting Pot, mas apetece recordar a primeira vez que lá fui. A primeira coisa de que me recordo foi do autêntico recitar de uma profecia de delícias que nos foi apresentada, enquanto nos explicavam as iguarias que nos seriam servidas. A leitura daquele menu degustação criava nos comensais uma expectativa altíssima e atirava para o “missionário da cozinha” (feliz e apropriada expressão de Álvaro de Campos) a responsabilidade de lhe corresponder. Terminada a refeição / degustação, constatávamo-nos como pecadores que se deliciavam na sublimação de um pecado bem mais próximo da luxúria do que da gula. Éramos, enfim, comensais sem arrependimento e sem outra redenção que não fosse a de garantir o regresso a este santuário da gastronomia.

Sinto, a cada visita, uma renovação desta primeira experiência.

Escrito por: a 22 de May de 2011 - 12:54 | 3 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: ,

G Spot (sim, existe)

Há restaurantes que nos fazem bem ao espírito. Há, na verdade, restaurantes que transcendem essa adjectivação redutora e que são, mais do que sítios onde vamos comer, sítios onde vamos e continuamos a ir porque nos sentimos bem. Também porque comemos de forma magnífica, bem entendido.

O G Spot (ou GSpot, ou G-Spot – a doutrina diverge e eu perdi a paciência para tentar descobrir a grafia correcta) Gastronomia é, acima de tudo, um sítio de onde venho com a alma renovada, o espírito sossegado e o estômago confortado. É pequeno – arrisco-me a dizer que tem a dimensão ideal – sem ser diminuto, é sossegado sem ser envergonhado, é sóbrio sem ser aborrecido, é descontraído sem ser forçado. Ajuda – ah pois ajuda – ser em Sintra e ter uma vista magnífica sobre o vale, o Palácio da Vila, o Mons Lunae, toda aquela janela sobre um mar de tranquilidade encapsulado num enclave à beira de Lisboa. Sintra sempre me pareceu incrivelmente distante de Lisboa, apesar de ser tão perto – se me faço entender (e é natural que não faça, de acordo com a opinião geral de muito boa gente sem vocação para identificar a genialidade).

Para um restaurante que se chama G Spot, o que pode à partida invocar algo afectado ou até quimérico, é sobretudo e essencialmente – percebo-o agora – natural. A simpatia é natural, o ambiente acolhedor é natural, o aconselhamento profundamente sábio dos vinhos é natural e a comida é naturalmente brilhante, não obstante o carácter criativo da maioria dos pratos. É inovadoramente natural e naturalmente inovador (foi esperto da minha parte, isto. Naturalmente esperto).

O restaurante é um projecto dos chefes João Sá e André Simões e do multipremiado (tipo Liga dos Campeões) escanção Manuel Moreira, uma enciclopédia viva e um exemplo de como se pode transmitir informação de forma simples, descontraída e profunda ao mesmo tempo. É como ir à bola com o Mourinho, mas no nosso lugar cativo. O casamento é perfeito: o vinho certo, sempre, com a comida certa. Divórcio não há: ninguém no seu perfeito juízo (ou palato) se quererá separar daquele Lombo de bacalhau confitado com gaufre de batata doce e compota de tomate ou daquele Frango do campo com risotto de cogumelos.

Um dos maiores atractivos, para mim que sou um tipo visceralmente indeciso quando chega a hora de escolher um prato (para desespero de quem comigo partilha a mesa e porque, no fundo, quero é comer tudo o que está na carta), é o facto do menu de degustação ser a escolha natural e a estrela da companhia ao jantar. Acaba-se com a minha miséria (imaginemos a minha indecisão esperneante como um cavalo manco e os moços do G Spot como o experiente e sábio pistoleiro de um Western que dá um tiro misericordioso na cabeça do bicho) e entrego-me com alívio e antecipação à aventura. É que, confesso, a maioria das vezes nem leio em condições o menu. Não vale muito a pena, porque atendendo à minha já lendária memória de curto prazo e ao meu défice de atenção, passados 5 minutos já não me lembraria de nada, e assim sou surpreendido pelo prato e pela explicação do mesmo na hora.

Cada menu, e mudam mensalmente, é como uma daquelas viagens organizadas por amigos em quem confiamos, que tratam de tudo e nos fazem uma lista do que devemos levar e marcam os voos e os hóteis e depois ainda nos surpreendem com destinos em que às vezes arriscamos a vida mas nos divertimos à brava. Com o pormenor de que aqui se trata de comida. Francamente boa, sistematicamente criativa e, no entanto, reconfortantemente reminiscente de coisas que já fomos muito felizes a comer.

É que se pode – e isto, aparentemente, será uma novidade para restaurantes de inspiração prokofieviana e afins – ser-se inovador, criativo e irreverente e ao mesmo tempo fazer comida que saiba de facto bem, ao invés do malabarismo gastronómico resultar em coisas que achamos ‘interessantes’ (eufemismo para ‘bela merda, sabe-me a uma barra de sabão azul com alcatrão, mas tem um ar sofisticado e intimidador’). Quem diria.

O G Spot é francamente bom e especialmente apelativo (para mim) porque é tudo menos cagão ou pretensioso, tendo tudo para ser cagão ou pretensioso, o que diz muito sobre quem lhe está ao leme. São bons – muito bons – no que fazem, mas são simples e naturais. O que é um trunfo. Além de outras coisas, porque afasta os cagões.

Por incrível que pareça, o restaurante parece ainda um segredo bem escondido. Talvez por isso – provavelmente por isso – ofende-me quando o vejo em destaque pelas revistas da moda. Apetece-me comprar todas as provas e queimá-las. Quero-o intacto, nesta elegância sossegada, nesta discrição de câmara secreta, nesta simpatia personalizada. Eu sei, é profundamente egoísta da minha parte, e muito honestamente eles merecem que o G Spot se torne local de peregrinação em barda.

Mas eu não quero. E, aliás, este texto autodestruir-se-á em 30 segundos.

Escrito por: a 2 de March de 2011 - 15:47 | 2 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: ,

Prazo de Roriz tinto 2008

No mundo pretensioso da crítica vinícola lusa, fala-se sobre o vinho com o mesmo grau de erudição com que o Manuel Machado ou o Luís Freitas Lobo falam sobre o futebol. Pelo amor de Deus! É vinho. Qual é o problema em dizer “este é um bom vinho”? Não pode ser apenas bom!? Tem de ser correcto ou capaz ou robusto ou generoso ou redondo ou o raio que o parta!?

Ontem, Manuel Moreira, o homem que idealizou e concretiza a boa gastronomia do GSpot e que percebe mais de vinho do que a maioria dos mortais, aconselhou-me um Prazo de Roriz tinto 2008. Aconselhou-o, dizendo que era um “bom vinho”. Simplesmente isto. Depois, explicou a origem e o caminho que a Quinta de Roriz pretende dar ao vinho que produz, bem como a importância da família van Zeller na produção do exemplar que se preparava para vir à mesa. Mas, antes de tudo, qualificou-o como um “bom vinho”. Simplesmente isso… e o vinho, de facto, era simplesmente isso: um bom vinho.

Depois de ser um bom vinho, lá vamos, com mais ou menos jeitinho, tentar descobrir, analisar o que faz daquele um bom vinho. Poderemos chegar aos malabarismos circenses de quem perora sobre as notas frutadas ou o equilíbrio ou a hora do dia em que o enólogo espirrou. Mas podemos também, simplesmente, considerá-lo como um bom vinho. É justo, é verdade e é merecido. E, para que a prova vinícola fique completa e o vinho honrado, este deve ser acompanhado por uma conversa agradável, brindes sinceros e uma boa refeição.

Obviamente que, com isto, não pretendo dizer que a erudição vinícola não seja necessária. É-o, certamente, mas não à refeição. Esta quer-se asseada.

Escrito por: a 26 de February de 2011 - 19:18 | 0 comentários | Arquivado em: Vadiagens Etílicas | Tags: , ,

Monte Cascas Reserva Tinto Regional Alentejano

Cascais é uma terra marcada pelo anátema dos “Delfins”. As marcas, feridas profundas, deixadas por essa malta foram de tal ordem que pensei nunca as ver cicatrizadas. No entanto, nos últimos anos, o esforço para mudar a imagem tem sido titânico e sem tréguas. O aparecimento de Rui Fialho à frente dos destinos do fantástico “Melting Pot” (já merece um post…) foi um passo importante para mostrar ao mundo que os “Delfins” não iriam macular eternamente Cascais. A luta continuou e, prova disso, foi a abertura da “Confraria do Sushi” (já merece um post aqui e umas páginas no calendário Pirelli) com as delícias que a compõem. Por esta altura, convenci-me de que Cascais tinha equilibrado a luta com o mundo e já expiara, perante a história, as culpas de ter permitido a criação e o desenvolvimento dos tais “Delfins”.

Hoje, tenho a certeza de que Cascais já nada deve ao mundo: foi lá que dois enólogos com pinta de beto (ou não viessem da betolândia…), mas com muito bom gosto e qualidade, criaram a “Casca Wines”. Na “Casca Wines” juntam as melhores uvas de diferentes regiões para, com as mesmas, fazer uma produção com a qualidade que, na maioria das vezes, não se sabe fazer na região originária das mesmas. Produz-se com uma qualidade inversamente proporcional à quantidade, o que faz destes néctares raridades que se encontram apenas em restaurantes e em garrafeiras que as mereçam (casos do “2780 Taberna” e da “Wine o’Clock“).

Assim, ouvir falar em “Casca Wines” exige atenção, beber o vinho criado (é o termo) por aquela malta merece vénia, e beber uma garrafa de Monte Cascas Reserva Tinto Regional Alentejano justifica, no mínimo, que se beba uma segunda… Aliás, a certeza de que só cria vinhos como o referido quem já muito mourejou na árdua tarefa de ter bebido bastante é uma relevante nota  sobre a importância do empirismo. Comprova-se, deste modo, que, tal como na música, é necessário primeiro ter experimentado bastante, antes de nos lançarmos na criação do produto. Lição garantidamente aprendida pelos enólogos da “Casca Wines” e ignorada pelos moços dos “Delfins” (com a excepção do cabeludo, porque gostava de bom futebol).

Escrito por: a 12 de February de 2011 - 11:36 | 1 comentário | Arquivado em: Vadiagens Etílicas | Tags: , , , , , , , ,

2780 Taberna

2780 não é um número qualquer, é um código postal, é um destino. Este restaurante em Oeiras é, actualmente, o destino onde me dá mais prazer saborear uma refeição, saborear o ambiente e saborear a companhia dos amigos comensais.

O “2780 Taberna” tem sido apurado em baixa temperatura ao longo dos curtos anos de existência. Os sabores e as ideias originais que estiveram na origem e criação daquele espaço estão lá todos, intactos e puros como em todos os inícios, mas estão mais apurados, mais cuidados, mais maduros, mais seguros e ainda mais saborosos.

Em cada visita, acabo por reencontrar sempre um sabor tradicional com uma roupagem inovadora e surpreendente. Recentemente (ontem), foi o reencontro com um caldinho de feijão com ovo de codorniz que, sinceramente, nos faz chegar a ter sentimentos de culpa pelo prazer proporcionado. E o que dizer de um bacalhau com Brás (é mesmo assim o nome do dito) que nos faz esquecer toda e qualquer ideia pré-concebida que possamos ter sobre a forma de preparar o bacalhau?

Além disso, sabemos que aquela experiência, naquela semana, dificilmente será repetida, pois na semana seguinte haverá um novo menu, com novas propostas, com novas ousadias, com novos prazeres.

Um dos aspectos mais penosos em alguns dos restaurantes de referência é a diferença entre a qualidade dos pratos principais da refeição e a sobremesa. Quantas vezes sentimos que aquele último verso do segundo terceto acaba por ficar aquém do resto do soneto? No “2780 Taberna” isso não só é improvável como conseguem fazer o oposto. Ou seja, quando pensámos que nada (e é mesmo nada) consegue ultrapassar a qualidade e o prazer proporcionados pelos quatro pratos já saboreados, surge uma sobremesa, um remate de refeição perfeitamente enquadrado e integrado em toda a experiência tida. Imaginem uma excelente jogada do Aimar finalizada pelo Saviola. Sabemos que, mais do que um feliz e esporádico encontro, é um complemento pré-definido pelos deuses. É exactamente o que sucede com as sobremesas no “2780 Taberna”.

A carta de vinhos é coerente com a comida. Com vinhos ousados, inesperados, de excelente qualidade, escolhidos por quem sabe exactamente onde encontrar o difícil equilíbrio entre a qualidade e o despretensiosismo, entre a seriedade e o respeito que merece uma cozinha de eleição e o bom humor com que se tempera uma boa refeição.

Sinto-me lá bem, muito bem mesmo.

Escrito por: a 8 de January de 2011 - 15:23 | 1 comentário | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: ,

Pedro e o Lobo

Muito antes de Prokofiev ter andado a brincar às músicas didácticas, já a história tradicional de Pedro e o Lobo tinha o pendor didáctico de ensinar às criancinhas que não se deve enganar o próximo. Pedro ia avisando os pastores para a chegada do Lobo e divertia-se ao ver os pastores em cuidados infundados com a bicharada. Até que um dia o lobo estava mesmo próximo e já ninguém atendeu ao alerta de Pedro.

Recentemente, os lobos enganaram, e bem, um Pedro. Praticamente todos (também não são mais do que dois) os lobos da crítica gastronómica lusa com quem perco tempo garantiam que “Pedro e o Lobo” é, nos tempos que correm, o melhor restaurante em Lisboa. Enganaram-me! Não é o melhor nem está entre os melhores e estaria de rastos a restauração lisboeta se aquele fosse o melhor que há para apresentar.

Para começar, observei atónito a técnica de conseguir transformar um Martini rosso em algo com sabor a Tang laranja. Para terminar, registei que conseguiram apresentar uma sobremesa não mais do que sofrível de chocolate e avelã. Nada, mas rigorosamente nada, justifica a fama que aquele restaurante tem. Da totalidade de propostas presentes no menu degustação salvaram-se do naufrágio a endívia caramelizada com mil folhas de cogumelo e o ovo do campo a baixa temperatura com mousse de serra da estrela em migas com paiola. O robalo com leite de coco estava interessante até ao momento em que trinquei um molusco que tinha em si um areal de fazer inveja ao da Figueira da Foz e o magret de pato com molho de pêra estava… seco.

O ambiente da sala – e não me refiro à decoração, mas sim a grande parte da clientela – assemelhava-se a um galinheiro em que as galinhas emproadas se digladiavam por cacarejar mais alto do que os perus emproados que se esforçavam por espalhar pelas mesas adjacentes decibéis repletos de conversa de beto pretensioso e bastante afectado. Sem exagero, já estive em messes militares e cantinas universitárias menos ruidosas.

O “Vila Santa Syriah” é um bom vinho, comportou-se à altura e registo com agrado que foi servido à temperatura certa. Registo ainda com mais agrado e bastante alívio o facto do vinho não ser feito lá.

Enfim, o “Pedro e o Lobo” é um hino ao pretensiosismo bacoco, em que se confunde invenção com inovação e ainda não perceberam que associar sabores é uma ciência e não uma qualquer porra aleatória.

Depois não digam que o Pedro não vos avisou.

Escrito por: a 31 de December de 2010 - 00:32 | 2 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: , ,

Bolo Gay

Vem isto, por acaso, a propósito da quadra festiva, mas é algo que já me irrita há uns bons anos.

É triste perceber que a corrente politicamente-correcto-sanitária deu mais uma facada na nossa identidade nacional e fez outra vítima. Irrita-me sobremaneira o facto do Bolo-Rei ter sido sanitizado e já não ter a cabra da fava e o estupor do brinde, o que lhe retira o assomo de romantismo que tinha associado. Agora quando o portuga dá uma dentada no bolo já não corre o risco de partir um dente num pendente de pechisbeque ou engolir um amuleto de chumbo, o que objectivamente tira o carácter aventureiro à coisa. Não, agora, em nome de um cinzentismo que procura proteger-nos contra a comida ‘perigosa’ e que passa um atestado de menoridade intelectual a todos os portugueses, o tio Alfredo já não corre o risco de, além de espetar os dentes contra uma fava com a consistência de um bloco de granito, ficar obrigado a pagar o próximo bolo.

Cúmulo dos cúmulos, agora até se fazem Bolos-Rei para gente que não gosta de Bolos-Rei. De forma extraordinária e – acredito – involuntariamente irónica, chamam-lhe Bolo-Rainha. Penso que o nome diz tudo, mas quando se exportar sugiro juntar um ‘Drag’ antes do ‘Queen Cake’.

É o mesmo principio que preside à produção da maior imbecilidade da História Humana desde que um tipo em Tróia pensou ‘ai que cavalinho tão lindo’ : a cerveja sem álcool. Vamos lá ver uma coisa, e isto para mim é claro como um albino besuntado em pó de talco: a cerveja tem, por definição, álcool. Quem não gosta de álcool, não gosta de cerveja, aprende a viver com essa maldição e bebe outra porcaria qualquer. O Bolo-Rei é um bolo que tem (tinha) uma fava e um brinde. Quem não estivesse disposto a correr o risco de ficar sem um canino ou a defecar um animal de chumbo de lado, comesse um pão-de-ló.

Esta tendência de ir paulatinamente retirando as características específicas que dão identidade à nossa comida (e que constroem, numa parte muito apreciável, as nossas idiossincrasias: somos o que comemos), em nome de um paternalismo sanitário abjecto que nos vai ‘americanizando’ (no pior que a expressão pode significar) e que acha que as pessoas (essa entidade abstracta que passa por profundamente estúpida) precisam de ser protegidas dos perigos dos comes e bebes tradicionais – que espreitam, insidiosa e velhacamente, nas esquinas e atrás de arbustos para atacar os transeuntes comensais – ainda vai acabar por tentar retirar o feijão da Sopa da Pedra (e substituí-lo por qualquer coisa que não produza gases) ou por colocar ovos light (de galinhas que façam aeróbica numa base diária em quintas aprovadas pelo poder mussolínico da ASAE) nos bitoques. Eu não preciso que me protejam da comida anti-anti-séptica do Demo, nem dos petiscos de rua, nem dos queijos ou enchidos feitos sem recurso a fatos de amianto e à esterilização das panelas. Sou crescidinho e se quiser ir a uma tasca aparentemente imunda comer umas moelas ou uma feijoada com uma consistência demasiado semelhante a uma ringue de mud wrestling (já sem gajas), ou se quiser comer uma porra duma bifana numa roulotte que parece que tenha saído de uma zona de guerra, vou e como, sob minha inteira responsabilidade e risco. E se alguma alminha quiser lançar-se àqueles salgados com 3 semanas que vegetam pelos mostradores de vidro de restaurantes às moscas ou de bombas de gasolina de estradas tão usadas como o cérebro do Cláudio Ramos, é deixá-los. Provavelmente merecem a intoxicação alimentar que se segue. Mas deve-se deixar-lhes a liberdade de o fazer.

Chega. Dê-se um grito de revolta. Vá-se às gavetas das jóias das mães, namoradas e mulheres (ou do namorado, se for a companheira do Cristiano Ronaldo que estiver a ler isto), saque-se um qualquer objecto de quinquilharia e enfie-se bem fundo no lombo de um Bolo-Rei acabado de comprar. Agarrem numa fava seca com 15 anos ou esculpam um calhau em forma de fava e espetem lá para dentro. Depois sentem-se à mesa com a família e joguem à espécie de Roleta Russa que era comer um Bolo-Rei quando isto era um país de gente com pêlo na venta (e desdentada).

Ah, e acompanhem com um bom Vinho do Porto. Aproveitem enquanto não lhe tiram o álcool.

Escrito por: a 29 de December de 2010 - 17:16 | 6 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags:

O bife da Mercearia

Tenho a sensação de que se Deus (ou o que se lhe queira chamar) existe, escolhe comunicar connosco através da comida. Pelo menos, muitas das vezes em que me senti mais perto de acreditar que existe algo divino foi a comer. No meu caso particular, a mensagem celestial de hoje foi ‘apetecia-te um bife, não era? Toma lá, com os cumprimentos da casa, e delicia-te enquanto o teu colesterol rebenta pelo telhado.’

Já não ia à Mercearia Vencedora há uns bons anos, desde que decidi que não simpatizava particularmente com o estilo linha de montagem/fábrica de enchidos que implicava, na altura, uma rotação de mesas que não se coaduna com a forma como vivo uma refeição. A saber: muito, muito devagar, que comer depressa faz mal, mexe-me com o sistema nervoso e obriga-me a comer ainda mais devagar para enervar os empregados.

Mas hoje o que precisava era de um bife daqueles que sabemos que implicam algures no futuro uma ida ao médico (alturas há em que mandamos às urtigas todo e qualquer resquício de bom senso porque a alma exige um paliativo) e depois de o destino mandar, por um acaso feliz, que fosse malhar com as costas na Mercearia, o que se me oferece dizer, de forma desafrontada, é que é muito capaz de ter sido o bife que melhor me soube nos últimos 5 anos (porquê 5 anos? Porque é um número redondo, respeitável e porque a minha memória não me permite ir mais longe). Reparem no preciosismo da linguagem: ‘o que melhor me soube’. Não escrevo que é o melhor, porque é capaz de não o ser, mas o que de forma mais satisfatória me preencheu o buraco negro que crescia no universo que é o meu estômago.

Verdade seja dita, quando o prato me chegou à mesa, não descobri onde estava o raio do bife. Apenas vi um festival de colesterol em molho e um ovo, devidamente montado a cavalo (como urge) nalguma coisa que não era visível. Mas o bife estava lá, escondido, perfeito e mal passado, a suster a respiração por baixo da molhenga (com uma palhinha para respirar?) e a oferecer o lombo ao ovo, que lhe cravava as esporas sem perdão. O ovo a cavalo, diga-se de passagem, é a mãe de todas as coisas boas e decentes e  uma daquelas instituições que garante o equilíbrio do Universo; e conjura, de forma bizarra, imagens de westerns e longas cavalgadas pelas pradarias em cavalos esbaforidos – que mais não são do que bifes em estado bruto, convenhamos – a fugir de Sioux ou Comanches enraivecidos. Neste caso, o índio era eu (chefe ‘Águia Esfomeada’ ou ‘Estômago sem Fundo’, que quiserem), a cavalgada foi indomável e a captura do fugitivo não foi bonita.

O que posso dizer é que o prazer de rebentar com o bife foi proporcional ao sentimento de culpa que acarreta o facto de se ter a noção que se está a tentar bater uma espécie de recorde mundial de colesterol num só prato. Que o serviço foi bom, simpático e calmo, a que não é alheio o facto de se estar numa segunda-feira, ter sido ao almoço e hoje ser dia 27 de Dezembro, o que implica coma induzido para os 95% que andaram a encher o bandulho no Natal. E que, sim, a redenção é possível depois de se comer uma alarvidade destas, e ou está num copo de Courvoisier ou num jogo da bola com os amigos (especialmente se se for estrear uma nova camisola do Benfica, o que obriga a correr mais). No meu caso, está nos dois.

Por isso, se quiserem ir à Mercearia Vencedora, vão à da Marina de Cascais (que a outra é num sítio que faz lembrar um filme português dos anos 80) à hora de almoço. Entrem e peçam o bife à Mercearia. Quando ele chegar, não se assustem. Ele está lá, debaixo do cowboy de sorriso amarelo, e só precisa que o resgatem do lago de molho.

Escrito por: a 27 de December de 2010 - 18:09 | 1 comentário | Arquivado em: Guilty Pleasures, Vadiagens Gastronómicas | Tags: ,

Taberna Ideal e Petiscaria Ideal

Se não existissem, teriam de ser inventadas. Ou melhor, sempre quis que existissem e não sabia que já tinham sido inventadas. Refiro-me à “Taberna Ideal” e à “Petiscaria Ideal”. Uma não é bem uma taberna, a outra não é bem uma petiscaria, as duas juntas são um ideal.

Na Taberna encontramos expostas latas do chocolate em pó Coqui, o balde de gelo para os bons brancos e verdes é um simples fervedor do leite, o telefone é de disco e faz aquele barulho que era mesmo barulho. Entre os pratos (refiro-me mesmo aos pratos), é possível encontrar originais dos anos 70 com motivos gravados que passam pelo clássico Dom Fuas Roupinho e respectiva cavalgadura em posição de quem ensaia queda livre no Sítio da Nazaré. Acho que cheguei a ver uma chávena de café das que vinham como brinde nas embalagens do Juá (o mesmo da régua mágica, lembram-se?).

Além disso, tratam-nos pelo nome, tratam-nos por tu, tal como devem ser tratados os amigos. Por esse motivo, quando falo na Taberna ou na Petiscaria já me refiro aos anfitriões como a Tânia, a Susana, o João… E essa familiaridade no tratamento é também reservada aos sabores tradicionais portugueses que acabam por vir à mesa sem nunca estarem desvirtuados na sua simplicidade, mas com uma criatividade honesta e despretensiosa.

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Escrito por: a 21 de December de 2010 - 16:38 | 1 comentário | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: , , ,

Quinta das Marias

Mais do que o esquecimento que, eventualmente, possa causar, é nas recordações que ficam e que recorrentemente evocamos que está aquele extra que me faz considerar um vinho como sendo um dos eleitos de entre os vinhos de eleição.

A relação com o vinho é, para além de uma relação com a sua qualidade, uma relação com a qualidade da experiência tida aquando das ocasiões em que se bebeu um determinado vinho.

Na minha experiência,  “Quinta das Marias” está relacionado com a “Taberna Ideal” (tenho um dia de escrever sobre este conceito/espaço/restaurante/tertúlia…), com a partilha da amizade, da conversa, do fruir do tempo, do momento que fica.

O meu primeiro encontro com este vinho foi por acaso, na “Taberna Ideal”, após uma má experiência para começo de refeição com um fraco “Subsídio“. Para continuação de repasto, houve que rectificar a escolha. No momento, a escolha foi feita com o carácter científico e criterioso de nos decidirmos pelo vinho cujo nome constava nuns caixotes empilhados em frente ao balcão.

“Quinta Das Marias” seja, “Quinta das Marias” foi, “Quinta das Marias” tem sido… sempre que o encontro e, infelizmente, não o encontro muitas vezes. Apesar de ser relativamente fácil de encontrar em boas garrafeiras, apenas em dois restaurantes tenho o prazer de me reencontrar com ele: no referido “Taberna Ideal” e no “Quinta dos Frades“.

Sempre que me reencontro com o “Quinta das Marias” é no plural. É sempre em partilha, partilha de amizade e de convívio. É um vinho que vai bem a acompanhar com sorrisos, boa disposição, histórias e um bom repasto. E não é necessário recorrer à produção Reserva para que o possamos beber sem reservas. É um vinho honesto, tal como o ambiente de que tento dar testemunho, tal como a amizade. Isto faz dele o melhor dos vinhos? Não, faz dele uma excelente companhia para acompanhar bons momentos.

A nota de prova é fácil de fazer: O sacana do “Quinta das Marias”, tinto, de 2006, é muito bom!

Escrito por: a 14 de December de 2010 - 14:53 | 2 comentários | Arquivado em: Vadiagens Etílicas | Tags: , , , ,

Solar Bragançano

Desconfio sempre de restaurantes que são “instituições” e ainda desconfio mais de “instituições” que são restaurantes. A Assembleia da República é uma instituição que é um restaurante e o Solar Bragançano é um restaurante que é uma instituição. Perco a desconfiança quando vejo a utilização que é dada ao tacho.

No Solar Bragançano, o tacho (sinédoque de cozinha) serve para nos mostrar a honestidade da confecção do arroz de lebre, do coelho bravo à monsenhor ou do veado à D. Teodósio… e isto não só merece respeito como merece umas boas horas à mesa.

Diga-se que a caça foi mesmo caçada e que é bom ver que há quem ainda saiba que coelho e lebre devem ser cozinhados consoante. Tal como é bom saber que, quando se come caça caçada, há pequenos chumbos, os mesmos que mataram o animal, que podem acompanhar a refeição. Ideia perfeitamente normal para pessoas normais e que escandaliza todos os que acham que a bicharada, quando vem morta para o prato, morreu de morte natural e indolor.

Qualquer iniciado nestas andanças da teosofia gastronómica sabe que bicheza bravia como a citada obriga a néctar que puxe pelo paladar e apure os sentidos que importam à degustação – a começar no sentido de humor – enquanto, numa equação etílica, relaxa todos os outros sentidos que não são chamados à mesa. No que a isto diz respeito, a carta de vinhos só tem paralelo na excelência com que o senhor Desidério os trata.

A experiência ideal é ter o coelho bravo no prato, a simpatia da dona Ana Maria na condução da refeição e aquele misto de Telmo Pais garrettiano com Lurch, o senhor Desidério, a tratar o vinho como Antero tratava um decassilábico. Tudo isto num espaço que, juro, já o tinha idealizado em algumas passagens de Eça de Queiroz. Para quem ainda não tinha percebido, é em Bragança.

Escrito por: a 10 de December de 2010 - 11:23 | 2 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: , ,

Aix-en-Provence

Aix-en-Provence só não é uma cidade abichanada porque, efectivamente, é uma cidade feminina e no feminino. Imaginem o “Mundo das Mulheres”, da SIC Gaja, mas sem o Cláudio Ramos. Deixa logo de ser um programa abichanado, para passar a ser um programa feminino. E isto faz toda a diferença. Nenhum de nós está para aturar um programa de gajas, em que falam de assuntos de gajas, se as ditas não forem agradáveis à vista. E isto também faz toda a diferença. Neste caso, nós, gajos, cumprimos verdadeiramente o verbo que se utiliza na frase “estou a ver televisão”. Enfim, comprova-se a que a máxima “small talk long legs” (também há a versão “small talk big boobs”) funciona em televisão.

Tudo isto para dizer que Aix-en-Provance é uma cidade feminina. Aix é uma Renault 4L cor-de-rosa. Uma 4L é carripana de gajo: conheço veterinários, daqueles que vão às quintas ajudar as vacas a parir, que se deslocam de 4L e atiram com as botas cheias de bosta e palha para a traseira da dita carrinha. Tive um amigo que, na pós-adolescência, votava a traseira da 4L a um tal abandono que chegou a dar para lá criar cogumelos e míscaros. E qualquer uma destas situações é coisa de gajo.

Uma 4L cor-de-rosa é coisa de gaja. Viver em Aix-en-Provence e ter uma 4L cor-de-rosa é o sonho de qualquer gaja (deixem-se de tretas, porque é). Neste caso, a 4L passa a ser mimosa (mimosinha) e serve para transportar a fruta e os vegetais comprados no mercado “viçoso” e cheio de produtos vindos dos terrenos que circundam Aix, tal como serve para transportar aquela bugiganga comprada no antiquário ou na vendedora étnica, ecológica e ligeiramente bizarra que se encontra naquelas feiras provençais, nas manhãs de sábado. Com um pouco de ousadia, até serve para transportar aquela cadeira lacada, velha, solitária, tão tipicamente local e quase sempre presente nas fotografias da Provença. A nós, gajos, só nos é permitido viajar numa 4L cor-de-rosa se não formos nós os condutores. Numa 4L cor-de-rosa ela é quem conduz!

Aix-en-Provance é uma terra feminina, graciosa, bela, onde o nosso olhar masculino descansa bem, onde elas conduzem e ditam as regras, mas onde, no fim do dia, encontramos bons restaurantes, com bom vinho, comida sincera e gente simpática. Chegamos até a sentir que conseguiríamos viver em Aix durante… um mês. O tempo suficiente para começar a sentir uma necessidade urgente de pintar como Cézanne ou endoidecer como Van Gogh. E todos sabemos que é mais fácil endoidecer como Van Gogh do que pintar como Cézanne. Tal como todos sabemos que ter duas orelhas dá jeito e dá um ar de simetria que não deslustra.

Escrito por: a 5 de December de 2010 - 17:20 | 7 comentários | Arquivado em: Vadiagens on the road | Tags: , , ,

Frango assado

O frango assado nas brasas é uma instituição sobre a qual o “gourmetismo” pretensioso se recusa a escrever, essencialmente  porque, na sua essência plebeia e simples, não permite grandes brincadeiras. Ou seja, um frango assado é o que é e ponto. Ninguém está para aturar um frango assado travestido  numa pasta liquida e esferificada salteada de peta-zetas.

Em cada português há um treinador de bancada, um potencial leitor do “Correio da Manhã” e um connaisseur do fantástico segredo de saber onde se assa o melhor frango do mundo. Aliás, segredo que constantemente se partilha com a certeza da infalibilidade. Eu também sei onde está o melhor frango assado do mundo: no restaurante “Toucinho”, em Almeirim. Acrescento que o “Toucinho” já deveria ter recebido as ’3 estrelas Camac’: uma pelo frango, outra pelos lombinhos de porco em vara de loureiro e uma terceira pela inigualável sopa da pedra. Por falar em tão famosa sopa, importa não esquecer que há a sopa da pedra do “Toucinho” e depois há as outras sopas da pedra, da mesma forma que falar de Ferraris é diferente de falar de automóveis.

Voltemos ao frango assado nas brasas. A dita ave proscrita pelos chefs e ‘parachefs’ lusos é de tal forma nobre que se tem demonstrado, per seculum seculorum, como um dos melhores estimuladores olfactivos da gula. Quem nunca, ao cheiro do belo do frango assado, se sentiu impelido a abandonar tudo para saciar a fomeca que já apertava à hora da refeição? [pergunta retórica que se destina a gajo que é gajo ou gaja que é gaja e não aos maricas que se recusam a sujar os dedos no frango assado]

A este propósito, recordo, com saudade e alívio, o momento em que, depois de uma semana em terras de Espanha a comer porcarias fritas a que os gajos chamam comida, encontrei, em plena Aste Nagusia de Bilbau, um rua inteirinha (porta sim-porta também) a assar frangos, que não se apresentavam em versão miniatura e aromatizavam um bairro inteiro. Duvido que algum dia as minhas papilas gustativas tenham salivado tanto como nesse momento. E foi com um simples frango assado.

Um dos meus primeiros textos aqui teria de ser sobre um bicho assim: simples, saboroso e profundamente estúpido enquanto vivo.

Escrito por: a 2 de December de 2010 - 11:59 | 13 comentários | Arquivado em: Vadiagens Gastronómicas | Tags: , , , ,

As Coisas Boas da Vida

Sem rodeios: este é um sítio para celebrar as Coisas Boas da Vida.
O mundo é, na grande maioria do tempo, um local sensaborão e cinzento, mas coisas há que nos fazem sentir que vale a pena ter entrado neste carrossel.
Uma observação mais atenta do meu dia-a-dia leva à conclusão de que passo uma parte inusitada de tempo a evocar lugares e restaurantes onde fui feliz. Este é um sítio para partilharmos as coisas que nos fazem gostar da vida, que nos fazem sentir bem, que nos fazem momentaneamente felizes.
A felicidade, costumo dizer, não é um estado permanente. Ninguém ‘é’ feliz. Tem-se, isso sim, vislumbres fugidios do que seria uma vida feliz – é-se feliz por breves momentos. Há pessoas que têm mais sorte, porque são felizes mais frequentemente do que outras, que o são menos vezes.

Identificam-se facilmente, esses pequenos vislumbres – essas fatias de felicidade. São pequenos momentos em que tudo faz sentido, em que nos reconciliamos com o mundo e em que somos acometidos de um optimismo desmedido. Seja num pormenor da luz ao entardecer sobre o mar, no silêncio no cume de uma montanha na Islândia sob o sol da meia-noite, numa dentada numa perdiz de escabeche ou num Solomillo no Villa Maria em Llesp, numa colherada do pudim d’água no São Rosas, num copo de Gotim Bru ou de Mouchão, numa reunião com quem mais gostamos à volta de uma mesa, numa gargalhada sentida, na Sopa da Pedra de quem me trouxe ao mundo.
Duram minutos, estas lascas de perfeição. Com sorte, horas fugidias. E depois passam. A minha quimera é coleccionar tantos destes momentos quanto possa, aumentar exponencialmente os vislumbres de felicidade de modo a ser – momentaneamente – feliz mais amiúde.

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Escrito por: a 1 de December de 2010 - 18:57 | 5 comentários | Arquivado em: Vadiagens |

Vadiagens: uma forma de poesia.

No livro de Albert Cossery “Os Homens Esquecidos de Deus” há um vendedor de hortaliças que insiste, com o seu pregão, em acordar a rua onde Radwan Aly, o homem mais pobre do mundo, exercia o seu sagrado direito ao sono e ao ócio. Esta falta de respeito do vendedor de hortaliça acabou no dia em que Radwan Aly matou o dito vendedor com um penico de terracota atirado à cabeça. Radwan sacrificara o seu único bem, o único objecto que possuía, um penico, para proteger o direito ao sono, ao ócio, de toda uma rua. Neste acto de abdicação e puro sentido de sacrifício do maior dos vadios, muitos viram um crime e alguns outros, poucos, viram poesia.

Agostinho da Silva – uma das minhas maiores inspirações e influências, um mestre que nos abriga no desassossego – costumava dizer que toda a gente nasce poeta, inventor de algo novo e até então inexistente e inteiramente individual. “Cada um é o poeta que é” dizia. No entanto, as obrigações, o espartanismo das regras e convenções obriga-nos a espartilhar a vontade, o espírito e a poesia. A tentativa de quebrar essas regras, a busca pela ociosidade digna é, e sempre foi, uma demanda pela liberdade e pela poesia. Assim se percebem as sábias palavras de Agostinho da Silva quando afirmava que uma das formas de poesia é a vadiagem.

Este é o meu primeiro texto neste espaço de vadiagens comensais, ‘bebensais’ e outras que tais. E começa hoje, dia 1 de Dezembro de 2010, apenas porque é feriado nacional, logo, um excelente dia para vadiagens. Vamos para a mesa.

Escrito por: a 1 de December de 2010 - 13:05 | 7 comentários | Arquivado em: Vadiagens | Tags:
Oeiras Monte Cascas vinho tinto Vila Santa Syriah restaurante Pedro e o Lobo Petiscaria Ideal Mercearia Vencedora bife Bolo-Rei Confraria do Sushi Delfins Lima Mayer Sintra bife Wellington Chakall Restaurante Assinatura paradigma Casca Wines Prazo roriz tinto 2008 Quinta Roriz Subsídio vinho tinto Bilbau vadiagens Almeirim Restaurante Toucinho frango assado França Aste Nagusia Bragança Provença Restaurante Solar Bragançano caça Renault 4L Aix-en-Provence Taberna Ideal Quinta das Marias Quinta dos Frades Melting Pot G Spot Gastronomia 2780 Taberna Cascais Lisboa

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